sábado, 9 de julho de 2011

Inércia


 
Meus pensamentos continuam vagando
Tomando as mais diversas formas
Enquanto o meu próprio ser, minha essência
Continua parada esperando a luz que sinto ao longe
Meu maior erro… minha inércia, minha incapacidade
Eu espero que Ela me encontre, me abrace
Me tome, me proteja, me faça ser o que quero ser
Faltam-me forças para chegar onde devo
A distância, o tempo, tudo é tão cruel
Sinto o vento que tenta me empurrar até Ela
Ouço vozes que me dizem para prosseguir… meu coração
Ouço vozes que me dizem para desistir… minha razão
Peço a Ela que me ajude, que venha até mim
Mas sei que não é possível, algo a impede
O que fazer para juntar o que está separado?
O que fazer para separar o que está junto?
Como conseguir viver o que preciso sem abrir feridas?
Questionamentos sem respostas
Desejos que divergem das palavras que digo
Sentimentos que beiram a minha incompreensão
Enquanto não tenho respostas,
Enquanto não compreendo
Meus pensamentos continuam vagando
Tomando as mais diversas formas…

Aborto


 
Ele apenas observa a discussão.
- Você é louca? Porque não me disse que estava em seu período fértil? – grita Flávio.
- Meu amor, calma. Acho que poderemos...
- Poderemos o que? Criar uma criança? Não, nem pensar.
Flávio sai daquela casa batendo a porta.
Ele senta ao lado dela. Tenta fazer um carinho para acalmar Márcia, mas parece que ela não o sente, ou finge não sentir.
Márcia chora desesperadamente. O seu sonho em ter um filho parece que irá por água abaixo. Flávio não o quer.
Ele tenta consolar. Ela não o escuta.
Márcia liga para o celular de Flávio.
- Pensei melhor Flávio, farei o que deve ser feito.
E desliga.
Ela pega sua bolsa e a chave do carro.
Ele tenta falar com ela, tenta fazer ela desistir da idéia. É impossível ela parece não o enxergar ou ouvir.
Márcia segue em direção a uma clínica clandestina que faz abortos. Ele continua com ela, tentando em vão persuadi-la a desistir.
Márcia fala com o médico. Está tudo certo. Será feito agora mesmo.
Se dirigem para a sala onde será feito o aborto. Todos os procedimentos são realizados.
Ele observa. Triste.
O aborto começa a ser realizado.
Uma pequena complicação com Márcia.
“Não.” – ele grita.
Ninguém ouve como sempre.
No meio de tudo isso, pela primeira vez Márcia consegue enxerga-lo e ouvi-lo.
Ele está dizendo “não, não faça isso”.
Mas é tarde demais.
Ele enxerga o feto sendo retirado.
Ele vê a sua chance de retornar indo embora.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Vozes


 
- Sua vida é uma merda, seu inútil.
“Malditas vozes”, pensa ele. “Isso precisa acabar, mas como?”
A algum tempo essas vozes começaram a atormentar Roberto. Todo dia, toda hora, todo minuto essas vozes vinham em sua mente.
“Estou cansado, preciso dar um jeito nisso.”
O único jeito de fazer isso, você sabe qual é? Somente com isso eu o deixarei em paz.
“Caralho, fazer o que?”
Algumas imagens de um passado não muito distante vêm a sua mente.

- Roberto... Ajuda, por favor... – grita Márcia.
Roberto observa paralisado a sua namorada ser estuprada e morta por um bando de marginais. E no final de tudo, ele ainda implora pela sua vida.
O grupo se afasta dele dando risadas pela humilhação.

“Não pode ser. O que é isso? Porque me lembrei disso agora?”
- Não importa, seu covarde. Você sabe o que deve ser feito, então faça. Faça e o deixo em paz para toda a eternidade.
“Não, não farei isso.”
Roberto sai correndo, quase louco com tudo o que está acontecendo.
Chega em um bar em frente ao edifício em que mora. Pede uma dose de vodka. Mais uma dose... Pede a garrafa.
- Só bebendo mesmo Roberto, para esquecer o merda que você é.
“Droga até aqui. Nem bebendo isso me abandona.”
Já meio tonto pela bebida Roberto sai correndo em direção ao edifício novamente.
Pega o elevador e vai até seu apartamento.
- Sempre fugindo. Sempre com medo.
“Cala a boca, caralho. Eu não agüento mais.”
Roberto vai até o banheiro, lava o rosto. Precisa se recompor.
- Isso não vai adiantar nada seu merda. Você vai continuar o mesmo covarde de sempre. O passado nunca irá abandonar você.
“Ok, vou acabar com tudo isso.”
Roberto calmamente caminha até o seu quarto. Abre uma gaveta em seu guarda-roupa. Tira todas as roupas que estão dentro e no fundo da gaveta está o que ele tanto procura, o seu revólver.
- Finalmente, seu idiota. Vai tomar uma atitude de homem.
O cano do revólver em sua boca. Um disparo. Um corpo no chão.
Duas almas inquietas se olhando. Mais uma vez Roberto e Márcia estão juntos.
Márcia o observa e ri. Conseguiu a paz que procurava.
Roberto a observa desaparecer.
Ele chora, chora por estar morto. Chora por ser um covarde. Chora por não ter tomado atitudes quando necessárias.
O fim de uma vida. A vida de um homem que nunca irá descansar.

Futuro Incerto


Um futuro incerto, um destino mal traçado
O sarcasmo do tempo, a crueldade dos séculos
Mãos atadas, olhos vendados, desejos reprimidos
Um amor incerto, improvável, sem base para existir
O coração com ânsia de bater por alguém, com alguém
A inexistência da esperança de se reencontrar consigo
De fazer queimar a última centelha de amor em si
A mente completamente perdida em meio a um caos
Criado por um sentimento por muitos festejado
E por tantos outros, assim como ele, odiado
A alma ja maltratada pelo tempo, pela sua existência
Sem nada... sem futuro... com o destino acabado

terça-feira, 5 de julho de 2011

Acorrentado



Estou preso, acorrentado ao meu passado
Erros, escolhas, o caminho que tomei
Como gostaria de voltar e ter outra chance
Mudar o que eu fui, o que eu fiz comigo
Com os outros, com ela…
A perdi a muitas vidas, nos perdemos
Por minha culpa, por minha escolha
Um amor tão forte que perdurou tanto
Que se fortalece a cada vida, a cada reencontro
Talvez esse seja meu castigo, minha punição
Passar minhas muitas vidas procurando-a
Sem poder possui-la, sem poder toca-la
Sem entregar meu amor simples, sincero
Ah, meu Deus, ajude-me, eu lhe imploro
Sei que vendi minha alma às trevas
Mas foi pelo amor de uma mulher
Fui um tolo, um tolo infeliz
Preciso quebrar essas correntes
Me livrar de tudo, tomar meu caminho
Abraçar o amor que sinto por ela
Ah, meu Deus, me liberte, me salve
Sei o que sinto, sei o que ela sente
Preciso dela, assim como ela precisa de mim
Nossas almas são uma, apenas uma
Eu preciso dela, preciso dela…

O Despertar



Parte I

- Porra, essa dor no peito não passa nunca.
- Gabriel, você precisa procurar um médico para ver isso. Faz quanto tempo que você sente essa dor?
- Olha, eu acho que sempre a tive. Mas o que adianta? Já fiz todos os exames possíveis e não acharam nada.
- Já pensou que de repente pode ter uma causa espiritual?
- Como assim Ana?
- Tipo... Alguma coisa que tenha ocorrido em outra vida com você.
- Você sabe que eu sou cético pra caralho.
- E daí? Eu conheço um cara que faz regressão. Vamos lá falar com ele.
- Ana, você sabe que eu não acredito nessas coisas...
- Gabriel, faz isso por nós. Eu ando preocupada com você.
- Tá bom. Marca a hora e nós vamos nesse cara.
Ana vai até o telefone e liga para o Dr. Roberto marcando uma hora para a regressão. Gabriel fica se divertindo com a idéia.
- Pronto Gabriel, tá marcado. Amanhã às 16 horas.
- Então vamos ver no que vai dar isso.

*********

No outro dia às 16 horas os dois chegam ao consultório do Dr. Roberto. Um lugar simples com uma sala de espera e uma porta que dá para a sala em que ele presta os atendimentos.
Logo Gabriel é chamado.
Os dois se dirigem para a sala de atendimento.
- Boa tarde. Você deve ser o Gabriel?
- Sim.
- Já ouviu falar a respeito de regressão?
- Um pouco, mas sou um tanto cético.
- Bom... Não vou discutir isso, deite ali naquele divã.
Gabriel faz o que Roberto pede.
- Gabriel olhe fixamente para mim...
Começa a sessão de hipnose.
- Onde você está agora Gabriel?
- É um lugar estranho. Está escuro.
- Tente ver onde está.
- Um vilarejo. Tem pessoas atrás de mim. Eu preciso correr.
- Fale mais...
- Merda, me pegaram. São muitos, não consigo me mexer. Um deles vem com uma estaca.
- Continue.
- Cravou a estaca em meu peito. Eu estou sangrando muito.
- Esse é o motivo de sua dor. Vamos tentar remover esta estaca agora. Puxe-a.
- Não consigo.
- Vamos. Puxe. Retire ela do seu peito.
- Está doendo.
- Vamos Gabriel.
- Consegui. Retirei.
- Ótimo. Vou contar até dez e você vai voltar Gabriel.
Roberto faz a contagem. Gabriel retorna.
- Se lembra de algo Gabriel?
- Sim. Eu não entendo o porquê de tudo isso.
- Você foi morto dessa forma em uma vida passada. É como se a estaca ainda estivesse em seu peito, mas agora você a retirou. Com certeza não terá mais dor.
- Será?
- Claro. Se a dor voltar é só me procurar.
Gabriel paga a consulta e se despedem.
  
Parte II

- Ana, por que será que me mataram dessa forma?
- Vai saber né Gabriel?
- Mas será que isso realmente aconteceu?
- Claro que sim. O trabalho do Dr. Roberto é muito sério.
- Que sol horrível. Meus olhos estão ardendo muito.
- Estou vendo, eles estão muito vermelhos.
Os dois chegam em casa.
- Com fome?
- Sim Ana.
- Mas deixa, eu vou ver na geladeira alguma coisa.
- Então tá. Eu vou tomar um banho.
Gabriel vai a cozinha e abre a geladeira. Ele vê um pedaço de carne crua. Um arrepio de excitação percorre o seu corpo. Sem pensar muito ele pega o pedaço de carne e começa a sugar todo o sangue.
- Muito pouco. Preciso de mais.
Ele ouve o barulho do chuveiro sendo ligado.

**********

Ele caminha em direção ao banheiro.
- O que é isso que está acontecendo? Preciso de sangue.
Ele olha através do box o belo corpo de Ana.
- Gabriel, que susto.
Ele não consegue tirar o olho de Ana.
- Para de me olhar assim Gabriel. Estou ficando assustada.
Gabriel começa a caminha em direção a Ana. Seus olhos estão parados no pescoço.
Ele começa a beija-la.
- Gabriel, calma. Você nunca agiu dessa forma...
Um grito seguido de silêncio.
Gabriel afasta sua boca do pescoço de Ana com um pedaço de carne rasgada. O sangue escorre. Gabriel tenta sugar tudo o que pode.

Parte III

Gabriel está sentado no banheiro olhando para o corpo sem vida de Ana.
- Que porra é essa? Por que eu fiz isso?
Ele chora pelo que fez.
- Vou ligar para alguém. Preciso de ajuda. Mas para quem?
Ele se lembra da consulta com Dr. Roberto.
- Pode ser algo espiritual? Será?
Ele vai até a sala, pega o telefone e faz a ligação.
- Dr. Roberto... É Gabriel... Tivemos uma consulta hoje... Sim, gostaria muito de falar com o senhor... Amanhã? Não precisa ser hoje, agora... Certo, estarei ai em 30 minutos.
Gabriel corre até o banheiro, retira o corpo de Ana lá de dentro e o esconde dentro da despensa, limpa o chão do banheiro e sai.
- Quando eu voltar vejo o que faço com o corpo.
Chegando a casa do Dr. Roberto, ele é recebido com uma certa desconfiança.
- O que aconteceu Gabriel? Qual o motivo dessa visita tão urgente?
Gabriel conta tudo o que ocorreu.

**********

- Meu Deus. – fala Dr. Roberto.
- O que está acontecendo comigo doutor? Me diga.
- Gabriel, nós fizemos regressão de vidas passadas para ver se acabamos com a dor em seu peito.  A dor passou?
- Sim, claro.
- Preciso lhe contar tudo o que você me falou durante a regressão.
Dr. Roberto relata tudo a Gabriel.
- Mas doutor, o que isso pode ter a ver com tudo o que eu fiz?
- Você acredita em vampiros?
- Claro que não.
- Então meu amigo, abra sua mente. Você foi um em outra encarnação e foi morto por aquelas pessoas.
- O senhor quer que eu acredite nisso?
- Qual seria a outra explicação? Pense Gabriel.
Gabriel se levanta e começa a caminhar de um lado para outro deixando claro todo o seu nervosismo.
- Que merda doutor. E agora?
- Pelo jeito não é sempre que o seu lado vampírico toma conta de você.
- É. Acho que não é sempre não. Somente ataquei Ana.
- Sim. A não ser que você já esteja com sua fome saciada.
Gabriel para na frente do doutor, que está sentando em um sofá. Começa a olhar bem nos seus olhos. Os olhos de Gabriel começam a ficar cada vez mais vermelhos.
- Gabriel ?!?!?
- Cala essa boca doutor.
Com um golpe o doutor é lançado para o outro lado da sala, onde cai desacordado.
Gabriel chega até ele. Seus caninos estão grandes e pontiagudos. Ele se prepara para morder o pescoço de Dr. Roberto. Sangue esguicha do pescoço. Gabriel sente o prazer de saciar sua sede, depois de tantos e tantos anos adormecido.
Ele sai da casa do doutor mais forte do que nunca.
- Eu sou poderoso. – ele pensa.
Está começando um novo reinado. Um grande predador está de volta. O topo da cadeia alimentaria. Um ser perfeito, supremo. Um vampiro.